"Respeitável público! Uma salva
de palmas para o teatro circo Biriba". Essa frase, além de marcar a
infância de diversas pessoas, fez parte por 19 anos da vida de Rita Millani.
Gaúcha, de 50 anos, Rita chegou tímida ao estúdio e preocupada com a sua
caracterização. "O que vocês querem que eu faça?", perguntou inúmeras
vezes. Mesmo tímida no começo, ao decorrer do ensaio foi se soltando aos
poucos, contagiando o ambiente com suas poses e suas histórias.
Tudo começou quando entrou no teatro para trabalhar com
vendas, junto com a mãe do palhaço Biriba. Assistindo a peça da primeira
fileira, Rita sonhava em algum dia poder subir no palco. Após quase dois anos,
uma das integrantes deixou a companhia e ai veio o convite para integrar o
elenco. "Ela chegou e disse que você vai fazer e ai foi jogando as peças e
os papeis, dizendo amanhã você vai fazer uma senhora, e eu ia lá e fazia",
conta rindo.
Piriguete, senhora, caricata, caipira. Cada personagem
revela uma nova face e uma nova personalidade da Dona Rita. Mesmo em horas
complicadas, a sensação de estar no palco a fazia esquecer-se de todos os
problemas. "A melhor alegria de um artista é o aplauso". Ao ser
questionada qual era o seu personagem favorita, ela fala sem pestanejar que era
a caricata, uma personagem em que ela podia abusar da criatividade e da
improvisação na hora de sua composição.
Junto com o Circo Teatro Biriba, Rita viajou por diversas
cidades do sul do país. Vinda do interior do Rio Grande do Sul, ela nunca imaginou
que conheceria cidades como Blumenau e Itajaí, cidade a qual se apaixonou desde
a primeira vez. No início ela conta que havia muitas dificuldades, pois havia
lugaresque não havia nem agua encanada, nem esgoto. "Muita gente pergunta
se nós tinhamos banheiro, se tinha cama", relata. Com brilho nos olhos,
ela ainda conta que tem muito a agradecer o teatro, não só pela experiência,
mas também porque ajudou para o crescimento dos filhos.
Durante a conversa ela fala que os filhos sentem falta da
rotina e das pessoas que trabalham lá. A filha mais nova de Rita, por exemplo,
hoje pensa em um dia seguir para esse lado artístico, tanto que faz aulas de
teatro na Casa da Cultura de Itajaí.
"Eu achei que ela odiava estar no palco, porém agora ela está
correndo atrás do teatro", conta rindo.
Após todo esse tempo,
ela tece que tomar uma dificil decisão e deixar os palcos. Sempre pensando na
família, Rita saiu do teatro por conta dos filhos. Como a filha queria iniciar
na faculdade e o filho queria se estabilizar, ela se despediu dos palcos.
Depois de deixar os palcos, todas as roupas da sua personagens foram doadas a
circos da região. Com saudades de toda aquela loucura, ela diz que sempre que
eles estão próximos, vai visitar eles, e pensa no verão voltar a ajuda-los nas
produções.
Depois de muitas caras e bocas, risos e brincadeiras foi a hora de se despedir dessa moça tão simples e tão pura de coração. Hoje ela corre atrás do tempo perdido, e está investindo em cursos e terminando os estudos para um dia quem sabe ocupar alguma cargo administrativo. Mesmo assim, perguntamos se uma dia ela voltaria para a loucura que é trabalhar no circo. Com os olhos brilhando e o melhor sorriso que pode dar ela diz: "Não vou dizer que dessa água não beberei. Eu amo teatro, eu sinto saudade, eles são a minha familia"
À Rita, por nos deixar registrar suas múltiplas faces. Todas as mulheres que a compõe tornam-na única.
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